17 de nov de 2011

Não serei água.

Nada devora mais que o horizonte.
Pensá-lo futuro, por-vir ou morte
É abstrair qualquer fim que ronde
Alheio à ideia de sorte.

No lugar incomum de pensador
Como se todo nu atravessasse,
Estreito a voz, semelhante dor,
No rio de mágoas nascendo-me à face

Mas com que amor matou-os todos?
Buscando-se diamantes em cada verso
Se na resposta pronta de tolos
Adoecia-se pálido anverso?

O mundo não muda nunca
De hora em hora piora
Já que em verso se aprofunda,
Desmedido, é posto fora.

De que vale, sozinho, um braço levantado?
Ejacular desejo ou entoar preces?
Como retirar, oculto, debandado,
Do peito, a vontade de ser, que cresce?

Não serei água, decerto.
Nem único homem, simplificado.
Nem apenas visões no deserto,
Ou o sacerdote, intermediário.

Partir meu caráter ao meio?
Antes, coloco-me fora, marginalizado.
Pois da mãe, já não tenho o seio,
Mas ao mundo olho, olho deslocado.

16 de nov de 2011

Soneto da Infidelidade

Em nada a esse amor serei aplicado
Nem agora, nem nunca. Um bocado
Desse encanto que cantam por todo lado
Ei de cantar apenas ao que acontecer num quarto.

Quero degustá-lo sempre ao quadrado
E em seu gastar demasiado
Rirei um riso já acovardado
Chorarei um pranto, falsificado.

E assim, quanto mais cedo, eu tardo.
Pois nem a morte o findará coitado
Nem a solidão, por ser trocado.

Possa eu sempre estar fatigado
Pois mortal, amando e sendo amado
Nunca perderei o status de desejado.

14 de nov de 2011

Tristeza de acreditar na máquina

Não acredito que aconteceu comigo.

No auge de poético texto concluído,
a tela se fecha por um problema físico!

Ele se vai, e eu, sozinho, fico...

9 de nov de 2011

Mova-se!

Você teima
Década a década
Se mover.
E consegue,
Para trás.

Acha normal
Tudo isso
E uma mendicância abraça
A alma escolar.

A mentira tem inesgotável poder
Pois se sustenta no desejo de aceitação
Como verdade

Nesse espetáculo ao avesso
É preciso apenas ganhar.

Não se mova, que dói!
A vida é eterno movimento.

É conveniente que não saiba
Marcas sistemáticas de plural.
A primeira palavra pronunciada
Sempre deve ser
Coca-cola.

8 de nov de 2011

Classe Média

A três raios do centro
desse círculo Halfeld
nascem os pretos retintos
sublimes poetas.

E soam conversas,
murmúrios de Arte,
no Central.

E rabiscam-se versos,
em qualquer parte,
na marginal.

E quem vive no intermédio,
quando o Sol apaga,
tranca a janela,
comida farta,
e cadeado.

Enxerga o luar!
Lindo luar na tela da televisão!

7 de nov de 2011

Palavra,

Não cante a felicidade aos velhos marujos,
Sujos faróis não guiam mais à salvação.
Desenhe-a vagarosamente nas pedras
Rezas ainda mascaram o produto final da
Vida, enquanto ser poeta.

Sem medo ou amor verdadeiros,
Peitos cismados dirão novo amém.
Contando as semi-extintas palavras
Raras que surgirão num canto da
Vida, enquanto ser poeta.

Prelúdio de tardia vanguarda,
Espada ‘fraternal’ contra o cio,
Representa, oh letra trabalhada,
Amada sombra e desvario,
A vida, enquanto ser poeta.

‘E assim, quando mais tarde me procure’
A vida, angústia de quem realmente vive,
A morte, dor de quem escreve,
Possa dizer de mim, palavra, que tive
A vida, enquanto ser poeta.

Tecido não tecido.

Globalização?
Acreditar na integração?
Entre pessoas, nações e governos?
Tecnologia?

Por acaso o pessoal do facebook sabe
Quanto custa a hora na lan-favela?

Que globalização é essa?
Acreditar que há elo
Entre políticos
Por um mundo melhor?

Negro e mulher não têm vez não.
Só porque tem um marrom lá em cima?
Só porque tem estadista aqui embaixo?
Só por isso preto e mulher estão no poder?

Por acaso o operário de lá
Se preocupa com o operário daqui?
Ou do Japão ou da China?

Que bolsa de valor? Economia?
Que não pode deixar Dólar cair
Que Real cai junto?

Tenha santa paciência!

O real, pra mim,
É ter que fazer economia
E não ter nada de valor na bolsa.

3 de nov de 2011

Herança

Vovó morreu.
Deixou fazenda, amigos,
Tratores, empilhadeiras.
Deixou plantas, flores,
Vacas de muito leite,
Plantação, gado, milharal.

No leito de morte, chora.
Pede atenção e cuidados
Com tudo que construiu
E que até então
A família ignora.

Onde está tudo isso?
Que não vimos em vida,
Filhos protestam.

Num papel,
com tremida caligrafia,
Ela revela:
“Tá no facebook”.

Amor no ponto (de ônibus)

Quero um amor cafajeste
Desses que não ligam depois do cigarro
Depois do gozo.

Amor que anoitece na alcova
E amanhece na calçada,
Cheirando à batata frita e gasolina.
Sem ligar.

Amor de ventania,
Plantado na areia movediça,
Regado à vodca e canabis.

Amor absurdo, sem confiança,
Núpcio eterno,
De criança.

Amor que nunca diz não,
Pois não há perguntas.
Pago, novo no amanhã.
curtido, vacilo,
Gêmeo ao meu.

Amor faminto, seco,
Carnívoro,
De paletó e gravata.

Amor gratuito, fingido,
Que mata.

Amor de dois,
Sem depois.

Amor chulo, burro,
Como o dos outros mortais.

Amor perdido em canções
Comerciais.

Amor de esquina, bruto, gasto.
Amor-alma, lama, pressa e perfume.
Amor à deriva, volumoso, sedento.
Amor-agora, sem outros tempos.

E falho, fálico, orgástico.

Amor breve.
Antes que a campainha soe,
E outro amor desse o leve.

2 de nov de 2011

Química

Diamante da mamãe
Professor de ouro dos alunos
Prata da casa do sistema
Bronze para pais “da antiga”,
Mas o que movimenta os dias
Da escola e da sociedade atual
É o vil metal.

Sexo com segurança

À base de meus pensamentos transgredidos,
A apetência de arrumar um arrimo,
Faz dela, a auxiliar, culpada.

Infame por não desejar contido,
Solícito por receber como marido,
Faz dele, o protagonista, pervertido.

Copulam suas diferenças físicas,
Prevendo, após cada crepúsculo,
Mais bandos de paus e bocetas.

Ensaiando uma ode a Baco,
Ele, para ela, faz troça,
Enrijecido o mastro.

Locupletando-lhe a boca,
Súbito, vaza-lhe o líquido,
Rubro, picante, corado.

Acena-lhe um adeus moça,
Ingênua, ausente no descaso,
Pernas, completo embaraço.

Dúvida que surge logo:
Ela aceitará outro?
___ Talvez, mas só vai quando eu provo.

Nele houve firmeza:
Sexo com segurança, dia a dia,
Segurança de carro-forte
De loja, de obra, de academia.

Palhaços

Sempre tive medo de palhaços.
Os narizes vermelhos chocavam-me
Quando criança,
Com uma extrema supra-realidade
Que faziam minhas pernas tremerem.

Narizes vermelhos eu só via quando a gripe chegava
E me deixava mais uma vez na cama, prostrado.

Palhaços são bonecos malditos, cheios de estopa,
Sem coração.
Assustam crianças com suas risadas
Quase diabólicas,
Sempre sem graça.

Palhaços intimidam pais indefesos.

No baú do medo de cada um,
Eles retiram de seus filhos o controle.
O palhaço dá algodão-doce para a criança
E ela é capaz de se soltar do colo dos pais
Do calor de seus braços
Por essa guloseima falsa
Que some na boca deixando a irresistível
Lembrança de um doce enjoativo
E, às vezes, uma cárie.

Palhaços são capazes de erguer a mão
a um cumprimento pseudo-feliz
e no ato do encontro entre elas,
dar um choque surpreso na vítima
que espera, sem saber,
ser alvo de uma chacota.

Palhaços são figuras sinistras
Que esguicham água
Nos olhos dos outros
Através de uma flor.
Quebram toda beleza e charme das margaridas
Verdadeiras.


Nos olhos, a água impede a visão do acometido,
Turvando-lhe, pelos menos por segundos,
A realidade a sua volta.

E o distorcer da verdade é momentâneo.
E os momentos ruins criam marcas.
Palhaços têm pés grandes.
Esse membro de sustentação do corpo,
Amigo de casa ser,
Que não perdeu a incrível capacidade,
De andar.
Por isso, palhaços andam estranho.
Por isso seus pés se antecipam na chegada.

Palhaços colorem a vida em exagero,
Tirando dela a beleza das cores naturais.

E palhaços distorcem a voz.
Essa inesgotável fonte de comunicação.
Distorcidas, as vozes dizem não-verdades.

Palhaços pulam muito, demais.
Enquanto, na plateia,
Crianças, paradas, chupam os dedos
No desejo de estarem
Em seus lugares.

Palhaços são mórbidos,
Insensíveis e cruéis.
Na morbidez de suas palavras
São carregadas apenas vontades
Não-realizadas da infância,
Pois palhaços são seres duplos
E ler suas interpretações da vida,
Tira dela qualquer seriedade.






Palhaços sugam a consciência
E com ela a noção de certo e errado.


Palhaços entretêm.
Um entretenimento barato
De consequencias caras.

Palhaços carregam maçãs-do-amor.
Outro convencimento árduo e trapaceiro,
Pois nem fruto nem sentimento,
Uma atraente cor vermelha dura
Que esconde o interior podre.

Palhaços não são ficção.
Pois esta, pelo olhar crítico do artista,
Recria com subjetividade e plasticidade,
Uma nova realidade,
Social, reflexo e de constatação.

Enquanto a ficção faz-se irmã da história,
A voz do palhaço é pautada na mentira.

A arte feita por palhaços é sinônimo de bagunça
E entre suas acepções várias,
Está a palavra orgia.

E, talvez, palhaços sejamos todos nós:
Pais, filhos, professores.
Pois no fundo não entendemos
A máscara social que encobre o amor
Que existe entre nós.

Um palhaço leva-nos à cegueira completa,
Deixando-nos à mercê da tristeza.

Respiro, fundo.

Hoje vou vestir roupas coloridas,
Meu nariz já está vermelho.
E antes que embranqueça meu cabelo,
Pensar no papel de educador
E tentar entendê-lo.

Dor de amor

A cabeça confusa
e o coração de cada
um deles em pedaços...

Há uma beleza
nos olhos de um novo amor
que sempre se esgota.

Atordoado,
olho mais uma foto 3 X 4 na gaveta.

A amizade,
o amor sem sexo,
não me aprova.
Talvez não se aprove ninguém.

Olho atordoado
mais um fim de amor
entre iguais.

Sonolento,
ouço cada tic-tac
de cada relógio
que marca o tempo
sempre a começar.

Será mesmo a dor de amor
sofrida só uma vez?

Ignoro.

Busco em cada um deles
um pouquinho de aurora,
de sabor...

Mas é em vão...

De tudo aquilo a que obrigo
meu corpo aceitar,
o mais rebelde
é o coração.

Conto ou não conto?

“Círculo vicioso nada mais é que um gordo oferecendo cigarros”.

Definitivamente, agora tenho um fato. Antes de comprová-lo eu me inquietava com as questões de ordem vária que perpassavam minha mente em um veículo simples que comporta o mais variado tipo de gente. Ouvia uma amiga rica dizer-me que os ônibus transportam a plebe moderna, que eles são repletos de suor, insegurança e crianças-catarrentas-pidonas-respondonas-nojentas-sujas-mal-educadas. Ouvia isso com certo arrependimento de ter essa amiga; afinal sou um trabalhador que priva pela educação da massa e pelo seu direito de ir e vir. Não importando o grau de alienação imposto pelas camadas residentes no pico da pirâmide-social-capitalista-desigual-hetero-patriarcal-branca-moral-do-pensamento-americano, pensava eu que os pobres têm um lugar ao sol. Ou melhor, um lugar à janela. Sempre pensei que os ônibus fossem locais de exaltação do erótico. Pernas amparadas umas às outras, senhoritas rabudas de fichários abraçados aos seios mulatos indo para uma faculdade de pedagogia, esperando canudo de pedagoga boa para lidar com crianças (nunca me esqueço das que conhecem canudos há muito tempo para pagar essas faculdades). Pensava também que aquelas sacolinhas hiperbretas-bahamas-supermais-sales-carrefour demonstravam o valor do suor do trabalho. Agora tenho um fato. O homem que entrava suado pela porta da frente e desajeitado arrumava sua mala dentro da calça dependurado a um dos ferros de apoio contando as moedinhas-pagamento-salário-trabalho não percebia o olhar do jovem-bonitinho-alienado-magrelo-moicano-vermelho-de-espinhas-mochila-nas-costas-all-star-cano-alto-alargador-dor-dor-dor que se direcionava pra ele. De pé entre falas de senhoras-aposentadas-baixinhas-roliças fazia as quase acrobacias necessárias para se manter em pé. Sem querer, encosta seu pau no ombro do garoto que olha-carnívoro-insetívoro-herbívoro para a mala pronta ao ataque. Não passa disso. E o olhar é guardado. Tenho um fato. Outra vez, foi a lembrança de João Cabral no trânsito de ônibus parados na avenida mais movimentada da cidade. Qualquer filho-da-puta-trabalhador-classe-média-dono-de-carro-comprado-à-prestação poderia ter começado o que seria uma face para texto poético: buzina. Um buzina sem rima, outro buzina esquina buzina em cima de buzina refina buzina buzina buzina. Buzina é como galo na manhã rural onde ainda há galo. É buzina-joão-cabral-buzina que buzina e chama outra buzina e assim tece o caos. Buzina de tensão, buzina de pressa, buzina de repetição. Buzina de estresse, buzina pra quem merece, buzina fina, buzina buzina. Um fato. Ônibus também leva gente a curtir desafio. Leva dedo de senhora mais bem vestida na hora de passar a faca na alça e levar a carteira. Leva anel de ouro de casamento pra vender no morro e comprar a branquinha. Na verdade o ônibus também leva até o morro. Ônibus leva gente a sonhar com carro bonito passando na rua rápido. E de vez em quando ônibus no fundo leva casal de traveco pra balada. É até bonito. Ônibus leva vez ou outra gente bonita. A gente fica até olhando pro sapato pra ver se é de verdade ou sapato-vinte-e-cinco-de-março; pra roupa maneira-cor-de-bosta-rua-tereza. Velho, o ônibus leva toda hora. Velho senil. E leva velho principalmente na hora do almoço dos funcionários que enchem o ônibus com pressa de chegar em casa. Velho é velho. Quer assentar aqui moço? Não preciso de esmola não! To velho, mas consigo ir em pé. Menina boa senta de volta. Nem percebe a porra do chiclete colado no banco que vai agarrar na saia jeans e dá trabalho pra mãe tirar. Quer assentar aqui senhor? Quero não mané-filho-da-puta-mauricinho. Ganho do ce no braço, descarado. To velho, mas to firme. Menino bom senta de volta. Nem percebe a escarrada dada no canto da janela que escorreu e foi parar no tênis-bonito-madrinha-me-deu. Quer assentar dona? Quero sim minha filha. Então vai lá pra trás que tem lugar. Menina má volta e assenta quase em cima do pau no nego do lado. Vovó boa vai lá pra trás. Fato. Disserte sobre o tema “as empresas de ônibus não atendem de forma satisfatória nos grandes centros urbanos”. Dissertar? Ônibus não faz isso não, que eu saiba não dá nem ré. Dissertar é coisa pra maluco-profissão-estudante-trinta-anos-sexta-série ou então pra doido-profissão-professor-cinquenta-anos-sexta-série. Eu sei só falar de ônibus. Agora tenho um fato. Pensava eu que ônibus adiantava muito a vida gente. Que não tem cão caça que nem gato. Pra não andar a pé é melhor suar o suor dos outros. E ônibus serve pra outras coisas também. Serve pra levar parente-roceiro-chapéu-de-palha-cigarro-botina no enterro da bisavó que é em outra cidade. O triste é a briga pra ver quem vai passear na janela. Ônibus serve pra juntar as pessoas. Principalmente junta aquele sujeito esquisito que fica dando refluxo com cheiro de linguiça-do-almoço-derby-vermelho-café-cimento na sua nuca. Também serve pra medir força quando o assunto é o último ônibus da noite. Não empurra, dá um passinho à frente aí gente. Não empurra. Ao passinho pra frente-puta-que-pariu. Tenho um fato. Eu achava que elevadorzinho no ônibus pra quem usa cadeira de rodas era coisa boa e boa. Achava até saber que tinha bairro sem ônibus-cadeira-de-roda e rapaz-acidente-cadeira-de-roda-do-bairro-sem-ônibus-cadeira-de-roda. Tem ônibus que pensava que salvava gente em dia de chuva na getúlio-vargas-juiz-fora-camelô-isqueiro-mulher-pelada, mas não salvava. Deixava gente esperando tempão no ponto e depois dava banho de enxurrada na gente que esperava. Um fato. Entrei no ônibus pra subir morro porque estava cansado-mochila-pesada-tênis-velho-aula-o-dia-inteiro. Igual jogador-de-futebol-ativo-come-bichinha-gato fui empurrado por mulher-de-amarelo-sacoleira-preta-criança-no-colo-vai-vai-entra-rápido-moleque-to-com-peso-não-tá-vendo-? e refleti sobre o ônibus. Eis o fato: entrei de supetão empurrado pela demônia que vestia amarelo e carregava uma criança catarrenta preta no colo. Foi só entrar pra lembrar do dia em que terminei um namoro-alegria-quatro-anos-traição-tristeza. Sentara na poltrona e ficara pensando no que aquela música dizia. A música Close to you – They Long to be deixava meus olhos marejados por essa dor babaca e ridícula de um não-amor. E eu ainda acreditava que um grande amor não tem fim. Mentira. Mentira porque tem, mentira porque, na verdade, eu não acreditava. E a velha de amarelo olhava-me como quem tem ódio de eu representar uma classe de pessoas que tem celular ou tênis colorido (grande coisa hoje em dia na favela). A diaba estava muito nervosa de pensar que era pobre. Não conseguia suportar o que acontecia com os outros, pois ela tinha espírito de porco. Um espírito que roncava e fuçava o dia inteiro num peito caído e tristinho. Foi só um lance de falas imbecis que saíam de sua boca. Aconteceu que uma mulher que não conhecia bem o local levantou-se atrasada na hora de descer. Ao pedir que o motor desse mais uma parada, ouviu gritos da gentalha brava qual-é-minha-filha-acorda-pra-cuspir-todo-mundo-tá-cansado-doido-pra-chegar-em-casa. E a mulher (esqueci de falar que era jovem) desceu correndo sem perceber direito onde estava-coitada. Outra vez senti, mesmo de costas, o olhar da mulher que me penetrava pelos ouvidos, censurando o ato de eu censurá-la em pensamento por censurar a senhora-atrasada-na-hora-descer. Ainda bem que chegava a hora de eu fortuitamente descer também. E, de repente, levando às costas a mochila de livros e provas sobre Literatura Contemporânea, algo sobre o conto pós-moderno e cigarros à mão para poder logo fumar olhei-a de frente penetrante e percebi uma das coisas mais importantes que já haviam aparecido frente a essas lentes de jovem-pretenso-escritor, o fato: ela era gorda.

Manifesto

Manifesto


A vontade de cuspir é muito grande
Gritar bem alto para que ouçam que doeu aqui
Mexer entre os pontos da ferida sangrenta que não cura
Rebolar mais uma vez num formigueiro imundo
Onde os buracos levam a baratas insanas
Covardes
Hipócritas
Gente que não sabe amar
Desmurar, destruir, comer gente!

Piedade, mais uma vez!
Senhor Cazuza piedade!
Senhorita Amy, diga não aí de baixo ou de cima!
Apertamos novamente Bezerra,
Mas desta vez acendamos essa chama
Pois
Um azul intenso não cobre mais o mar de hipocrisia.

Eu quero deslizar nos óculos de Pessoa,
Encontrar-me com o filho eterno
Pisar nessa calçada suja
Pedinte
Regurgitar e quebrar esse silêncio com o meu vômito
Poético

Eu não sou amiguinho
Ouçam todos!
Não há verdade mais!
Creiam!
Manifesto a injúria, calúnia, porra e boceta de cada leitor.
A vida não vale nada
Se não vier inscrita num código de barras.
Insano sonho
Piedade!
Dessas pedagogas mortas em vida
Desse lirismo, Bandeira, mais uma vez comedido,
Dessa bomba suja Gullar,
Transformada,
E destruidora.

Unamos nosso canto aos galos de Cabral
Às velhas à procura da dignidade, Clarice!
Aos brasões assinalados, Camões!
Aos pequenos, que morrem por ideias, Chatterton!
O meu som não vai cessar.
A Obscenidade está
Ao passo tímido do herói
Piedade Ignácio Loyola
Eu vou gritar
Chorar se for preciso
Cantando
E não seguindo a canção
Desta vez.

Medo

Entre o tudo e o nada,
Folha amarelada da antiga,
Decidi que o mundo estava errado,
Bolha viva da mentira.

Assaltando um pensamento,
Vento, veículo de pesar,
Não guardei nenhum segredo,
Comendo pregos, sermões.

Contei até dois!
Medo saiu cantando...
Fez roda de fumaça.

Brincou, brindou,
Voltou correndo pra dentro.
De mim.

Desejo

A ambulância anuncia mais uma digressão.

Eu, sozinho, como estou agora,
Respiro saudades, fumaça e olhares.
Deixado para trás, lendo alguma bula de remédio,
Procurando algo imperativo que me mande parar
Ou talvez seguir.

Mais uma noite de álcool,
Cansaço corpóreo,
Sorrisos e descasos por uma conquista poeta.

Número um no coração dos amigos,
Número primo na lista do amor.
Mas não dou conta.
Desejo esse “um” com quem eu também possa dividir-me,
Para quem possa doar um pouco dessa loucura,
Que vem à tona a cada por do sol,
Que me foge em palavras a cada amanhecer,
E que me faz escravo de qualquer resto,
Por uma simples lembrança.

Transbordo,
Olhando, líquido, mais um álbum de retratos.

31 de out de 2011

Perigo

Perigo:

Consenso
Mente aberta
Livro
Criação.

Perigo:
Silêncio
Trigo
Salvação

Perigo:
Pós
Sexo
Emoção

Perigo:
Aquele
Entrega
Desilusão

Perigo:
Rimas
Pobres
Coração.

Bisavó

Sonhei com você esta noite.
Vestida de chitão.
Vestida de vestido.
Cabelinho curto
de quando ainda
não estudava geologia
nos "campos santos".
Olhava-me com ternura
em estado graça.
Buscava-me com os braços
abertos a uma criança.
Recebi o abraço
triplamente materno
aconchegando-me em seu colo.
Mas há covardia.
Houvesse o contrário,
iria a seu encontro.

Avenida Itamar Franco

Por tanto amor,
eu merecia um adeus.

Pelas madrugadas de álcool,
reviver a ternura
de antigas manhãs com você.

Lá fora soa,
mais uma vez,
o trem das treze horas.

Abro os olhos,
colantes de dor e pranto.

Mas a angústia é antiga.
De novo,
Só a Avenida Itamar Franco.

Fazer poesia

Qualquer texto vale pela circunstância que preside o seu nascimento.
Este, nascido quando os óculos me faltam, serve para demonstrar as utopias nascidas de um tempo em que a noite se resumia a um pós-vodca, cigarro e Sartre:

Um cão rói ossos na janela vizinha.
Sozinho, ouço o cantar de um galo,
Não muito distante.
Mas ainda são três da manhã.

Enganam-se os galos
Quando soltam seus lamentos
antes de amanhacer o dia.

Muitos ignoram o prazer
de perceber isso nas cidades.

Galos na roça
anunciam manhãs.
Na cidade,
anunciam fracassos.

As luzes confudem-nos
clareiam o espaço destinado à dor.

E é pos isso que se canta à noite.
Só por isso, fazer poesia é justo.

Fazer música do desencanto,
do tédio e da dor
transfere ao papel
a irresistível vontade
de ser feliz.

Ainda que tarde,
quando o Sol nascer
e dissipar qualquer loucura
pronta a ir dormir,
a dar lugar
a mais um dia
de trabalho.

Obsoneto

Enxergo tribunais da Inquisição
e fornos crematórios em toda parte.
Em salas positivas, vejo o não
à Crítica, à Estética, à Arte.

Homem de veste angelical
de passados terrenos escondidos
e de bolsos cheios do vil metal
trazidos para si, através dos ritos.

Enquanto ovelhas berram a canção,
excomungando o maldito, que num canto late.
Exauridos de qualquer forma de razão,

Gritam poetas, palavras-boceta-pau
Que Ciência? Política? Mitos?
Há na mente do passional?

25 de out de 2011

Adeus "amigo".

A boca entreaberta
à espera de um beijo seu.
Vinha deslizando pela rua,
agarrando-me à esperança
de encontrá-lo
novelo em si mesmo.

Rastejei ao beco escuro
clareado pelos faróis sujos
de automóveis que dizem adeus.

Ergui-me, sorrateiro,
traiçoeiro,
à espera de um beijo seu.

Sibilando contínuo,
cabeças pensam, ainda,
na voz do violão.

Cobro
as obrigações morais
Cobras
ao som da voz da poesia
minha presença.

Náuseo, poeirento, capitoso, destronado.

Forjada a imagem.
Desconfigurada a forma antiga.
Resta sofrer.

Pois mudou-se a roupagem.
Fez-se cantiga,
de maldizer.

24 de out de 2011

Saudade

Existe outra dimensão
Em que eu não sou eu.
Onde aprimoro sinais nos olhares
E angústias do passado.

Lá a chuva custa a chegar.
Lá não chove nunca.
Só há lagrimas a regar
esse solo
Severo.

Lá eu sou seu
Sou céu
Só meu
Enfim.

Lá longe tudo passa
Com um simples adeus.

Lá longe eu crio
palavras
e creio nelas.

Eu não tenho pressa.
Tudo curte dentro de mim
Com passos infantis,
Senis,
Levados pelo vento.

19 de out de 2011

Um poema

Há dias em que você ouve a mesma música por horas...
Eu parei um poema por você!
Aguardei mais um filme sair no DVD,
Deixei de comer gorduras...
Fumei menos e lavei-me mais.


Hoje, ouvindo músicas lindas e tristes de amor,
Parei para pensar:
No fim de cada noite,
Eu sabia que teria ainda sorrisos para contemplar o dia.
No rolar da cama,
Tinha a garantia de me encostar a seu corpo,
Ainda que ele se virasse fortuito.
Eu via como são belas as pedras,
Ainda que quando atiradas aos bichos.
E via uma graça infinita,
Nas suas poucas anedotas.

Suas misturas me falavam de desordem.
Suas coisas, infantis e coloridas, de amor.
Eu queria tanto germinar
E fui mutilado ainda semente.

Ah! Liberdade!
Que triste fim para essa cena.
Trai-me mais uma vez o coração.
E no remexer da palavra,
Que teima!
Cai,
na branca folha,
um poema.

Plangente

Como flor
Serei feliz
Serei feliz
Como flor



De água de chuva fria
Em tarde de verão
Verão no frio da água
Que choro
Um botão


Botão que acorda pela manhã
Manha de um acorde
Ao som do vento
Sentindo o amanhecer
Emoção



Serei feliz
Como flor
Como flor
Serei feliz



Meus olhos
Somente de amor
De inverno
Quentinho



Formam convite
Semente de amor
De inferno
Sorrindo



Ouvidos seletos
Vindo achar
Um sonho
Cor de sábado
À noite



Epiderme
Calor
Adocicado caminho
Àquilo por vir



Faro breve
Pouca escolha
Cheirando a voz
Do coração



E lábios
Protestos
Bocejos
Agrados
Sem igual



Regando um botão
De flor
Do mal
Alheio



Como flor
Serei feliz
Serei feliz
Como flor



Até que me peguem
E despedacem meu amor
Por um destino incerto.


Até que me troquem
E atirem-me ao raso
Por um botão viçoso.


Até que me pintem
Com sangue
E eu vire apenas um retrato.