16 de jan de 2013

No quarto do alheamento


Nas cortinas do meu quarto
as manhãs têm sido apenas sombra
velando outro, antigo e feliz rapaz
hoje pálido, peito em ruína.

A inércia possessa,
o cansaço que tenho,
(que é sombra de outro cansaço maior)
vêm-me de dentro, de um ontem
maior que o esquecimento.

Um nevoeiro que esfola os olhos.
As flores, minutos multicolores,
despencadas, desestruturadas.
Obscuramente oco de mim.

Detenho-me sem época.
Sem propósito.
E a finalidade das coisas ficou
à porta de um paraíso ausente.

E que fresco e feliz horror
o de não haver remédio!
É triste envelhecer de si próprio
sem choro, sem ódio ou desejo.

Observa a pequena aranha no teto!
É a marca da vida, talvez...
Como corre ao ver o inseto!
Matando-o, indolente, de leve.

Empreste-me, aranha, a sua armação!
A teia, fino lençol de linho funesto!
Cubra-me, silenciosa, o verso:
perfil hirto da minha imperfeição.