2 de nov de 2011

Conto ou não conto?

“Círculo vicioso nada mais é que um gordo oferecendo cigarros”.

Definitivamente, agora tenho um fato. Antes de comprová-lo eu me inquietava com as questões de ordem vária que perpassavam minha mente em um veículo simples que comporta o mais variado tipo de gente. Ouvia uma amiga rica dizer-me que os ônibus transportam a plebe moderna, que eles são repletos de suor, insegurança e crianças-catarrentas-pidonas-respondonas-nojentas-sujas-mal-educadas. Ouvia isso com certo arrependimento de ter essa amiga; afinal sou um trabalhador que priva pela educação da massa e pelo seu direito de ir e vir. Não importando o grau de alienação imposto pelas camadas residentes no pico da pirâmide-social-capitalista-desigual-hetero-patriarcal-branca-moral-do-pensamento-americano, pensava eu que os pobres têm um lugar ao sol. Ou melhor, um lugar à janela. Sempre pensei que os ônibus fossem locais de exaltação do erótico. Pernas amparadas umas às outras, senhoritas rabudas de fichários abraçados aos seios mulatos indo para uma faculdade de pedagogia, esperando canudo de pedagoga boa para lidar com crianças (nunca me esqueço das que conhecem canudos há muito tempo para pagar essas faculdades). Pensava também que aquelas sacolinhas hiperbretas-bahamas-supermais-sales-carrefour demonstravam o valor do suor do trabalho. Agora tenho um fato. O homem que entrava suado pela porta da frente e desajeitado arrumava sua mala dentro da calça dependurado a um dos ferros de apoio contando as moedinhas-pagamento-salário-trabalho não percebia o olhar do jovem-bonitinho-alienado-magrelo-moicano-vermelho-de-espinhas-mochila-nas-costas-all-star-cano-alto-alargador-dor-dor-dor que se direcionava pra ele. De pé entre falas de senhoras-aposentadas-baixinhas-roliças fazia as quase acrobacias necessárias para se manter em pé. Sem querer, encosta seu pau no ombro do garoto que olha-carnívoro-insetívoro-herbívoro para a mala pronta ao ataque. Não passa disso. E o olhar é guardado. Tenho um fato. Outra vez, foi a lembrança de João Cabral no trânsito de ônibus parados na avenida mais movimentada da cidade. Qualquer filho-da-puta-trabalhador-classe-média-dono-de-carro-comprado-à-prestação poderia ter começado o que seria uma face para texto poético: buzina. Um buzina sem rima, outro buzina esquina buzina em cima de buzina refina buzina buzina buzina. Buzina é como galo na manhã rural onde ainda há galo. É buzina-joão-cabral-buzina que buzina e chama outra buzina e assim tece o caos. Buzina de tensão, buzina de pressa, buzina de repetição. Buzina de estresse, buzina pra quem merece, buzina fina, buzina buzina. Um fato. Ônibus também leva gente a curtir desafio. Leva dedo de senhora mais bem vestida na hora de passar a faca na alça e levar a carteira. Leva anel de ouro de casamento pra vender no morro e comprar a branquinha. Na verdade o ônibus também leva até o morro. Ônibus leva gente a sonhar com carro bonito passando na rua rápido. E de vez em quando ônibus no fundo leva casal de traveco pra balada. É até bonito. Ônibus leva vez ou outra gente bonita. A gente fica até olhando pro sapato pra ver se é de verdade ou sapato-vinte-e-cinco-de-março; pra roupa maneira-cor-de-bosta-rua-tereza. Velho, o ônibus leva toda hora. Velho senil. E leva velho principalmente na hora do almoço dos funcionários que enchem o ônibus com pressa de chegar em casa. Velho é velho. Quer assentar aqui moço? Não preciso de esmola não! To velho, mas consigo ir em pé. Menina boa senta de volta. Nem percebe a porra do chiclete colado no banco que vai agarrar na saia jeans e dá trabalho pra mãe tirar. Quer assentar aqui senhor? Quero não mané-filho-da-puta-mauricinho. Ganho do ce no braço, descarado. To velho, mas to firme. Menino bom senta de volta. Nem percebe a escarrada dada no canto da janela que escorreu e foi parar no tênis-bonito-madrinha-me-deu. Quer assentar dona? Quero sim minha filha. Então vai lá pra trás que tem lugar. Menina má volta e assenta quase em cima do pau no nego do lado. Vovó boa vai lá pra trás. Fato. Disserte sobre o tema “as empresas de ônibus não atendem de forma satisfatória nos grandes centros urbanos”. Dissertar? Ônibus não faz isso não, que eu saiba não dá nem ré. Dissertar é coisa pra maluco-profissão-estudante-trinta-anos-sexta-série ou então pra doido-profissão-professor-cinquenta-anos-sexta-série. Eu sei só falar de ônibus. Agora tenho um fato. Pensava eu que ônibus adiantava muito a vida gente. Que não tem cão caça que nem gato. Pra não andar a pé é melhor suar o suor dos outros. E ônibus serve pra outras coisas também. Serve pra levar parente-roceiro-chapéu-de-palha-cigarro-botina no enterro da bisavó que é em outra cidade. O triste é a briga pra ver quem vai passear na janela. Ônibus serve pra juntar as pessoas. Principalmente junta aquele sujeito esquisito que fica dando refluxo com cheiro de linguiça-do-almoço-derby-vermelho-café-cimento na sua nuca. Também serve pra medir força quando o assunto é o último ônibus da noite. Não empurra, dá um passinho à frente aí gente. Não empurra. Ao passinho pra frente-puta-que-pariu. Tenho um fato. Eu achava que elevadorzinho no ônibus pra quem usa cadeira de rodas era coisa boa e boa. Achava até saber que tinha bairro sem ônibus-cadeira-de-roda e rapaz-acidente-cadeira-de-roda-do-bairro-sem-ônibus-cadeira-de-roda. Tem ônibus que pensava que salvava gente em dia de chuva na getúlio-vargas-juiz-fora-camelô-isqueiro-mulher-pelada, mas não salvava. Deixava gente esperando tempão no ponto e depois dava banho de enxurrada na gente que esperava. Um fato. Entrei no ônibus pra subir morro porque estava cansado-mochila-pesada-tênis-velho-aula-o-dia-inteiro. Igual jogador-de-futebol-ativo-come-bichinha-gato fui empurrado por mulher-de-amarelo-sacoleira-preta-criança-no-colo-vai-vai-entra-rápido-moleque-to-com-peso-não-tá-vendo-? e refleti sobre o ônibus. Eis o fato: entrei de supetão empurrado pela demônia que vestia amarelo e carregava uma criança catarrenta preta no colo. Foi só entrar pra lembrar do dia em que terminei um namoro-alegria-quatro-anos-traição-tristeza. Sentara na poltrona e ficara pensando no que aquela música dizia. A música Close to you – They Long to be deixava meus olhos marejados por essa dor babaca e ridícula de um não-amor. E eu ainda acreditava que um grande amor não tem fim. Mentira. Mentira porque tem, mentira porque, na verdade, eu não acreditava. E a velha de amarelo olhava-me como quem tem ódio de eu representar uma classe de pessoas que tem celular ou tênis colorido (grande coisa hoje em dia na favela). A diaba estava muito nervosa de pensar que era pobre. Não conseguia suportar o que acontecia com os outros, pois ela tinha espírito de porco. Um espírito que roncava e fuçava o dia inteiro num peito caído e tristinho. Foi só um lance de falas imbecis que saíam de sua boca. Aconteceu que uma mulher que não conhecia bem o local levantou-se atrasada na hora de descer. Ao pedir que o motor desse mais uma parada, ouviu gritos da gentalha brava qual-é-minha-filha-acorda-pra-cuspir-todo-mundo-tá-cansado-doido-pra-chegar-em-casa. E a mulher (esqueci de falar que era jovem) desceu correndo sem perceber direito onde estava-coitada. Outra vez senti, mesmo de costas, o olhar da mulher que me penetrava pelos ouvidos, censurando o ato de eu censurá-la em pensamento por censurar a senhora-atrasada-na-hora-descer. Ainda bem que chegava a hora de eu fortuitamente descer também. E, de repente, levando às costas a mochila de livros e provas sobre Literatura Contemporânea, algo sobre o conto pós-moderno e cigarros à mão para poder logo fumar olhei-a de frente penetrante e percebi uma das coisas mais importantes que já haviam aparecido frente a essas lentes de jovem-pretenso-escritor, o fato: ela era gorda.

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