31 de out de 2011

Fazer poesia

Qualquer texto vale pela circunstância que preside o seu nascimento.
Este, nascido quando os óculos me faltam, serve para demonstrar as utopias nascidas de um tempo em que a noite se resumia a um pós-vodca, cigarro e Sartre:

Um cão rói ossos na janela vizinha.
Sozinho, ouço o cantar de um galo,
Não muito distante.
Mas ainda são três da manhã.

Enganam-se os galos
Quando soltam seus lamentos
antes de amanhacer o dia.

Muitos ignoram o prazer
de perceber isso nas cidades.

Galos na roça
anunciam manhãs.
Na cidade,
anunciam fracassos.

As luzes confudem-nos
clareiam o espaço destinado à dor.

E é pos isso que se canta à noite.
Só por isso, fazer poesia é justo.

Fazer música do desencanto,
do tédio e da dor
transfere ao papel
a irresistível vontade
de ser feliz.

Ainda que tarde,
quando o Sol nascer
e dissipar qualquer loucura
pronta a ir dormir,
a dar lugar
a mais um dia
de trabalho.

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