28 de mar. de 2012

Menos um pouco de alegria...

Entre o imponente contemporâneo
(Tomado emprestado o teor de suas vozes)
Transpassaram o segundo plano
Verdadeiros políticos ferozes.

Se densa faz-se a escrita dos versos
Motivo encontra no sofrimento contido
De que não se podem negar tropeços
De um após outro pranto caído.

Um, que múltiplo, fez-se complemento,
Dos que, simples, revivem, presente, reprises.
Outro, que múltiplo, fez-se tormento,
Dos seres dos desmandos, sem diretrizes.

Por que deixa a noite sem brilho,
Chico Anysio?
Por que deixa a manhã sem humor,
Millôr?

__ Porque não deves julgar asperezas!
Fosses tu em nossa condição,
As decisões seriam as mesmas.

__ Por que não importa o corpo que é só Não!
Importa a Arte, que ressuscita!

Assim vem o sono, nostalgia,
Menos um pouco de alegria...

27 de mar. de 2012

Morte

Vem com caudalosas garras de abutre
Faminta em serena plenitude
E com o meu, o seu sangue nutre
Meus dentes, já sem atitude.

Vem com mão fria e cálida
Apalpa-me o músculo fibroso
Molesta-me a face pálida
O viver já custoso.

Vem madrinha da hora incerta
Mãe de quem teme, de novo, sofrer
Deita-me em seus braços, desperta
Lembrança que não se pode esquecer.

Vem dama da noite velada
Beijo frio e assustador
Ira sorrateira e calada
Segura para onde for.

Vem vestida de vermelho e branco
Leva do gosto o semblante
Seja breve, sem arranco,
Meu tronco, em terra seca, plante.

Vem noite já sem estrela
Escurece-me triste o olho
E esperando-a, possa não vê-la
Que vermes! Que presente colho!

Vem doce... Velhinha secular!
Branda, linda e certa!
Vem cantando, ceifando meu lar
Atraca, desliga-me o alerta.

Vem vestida de cetim
Com muita pena a seu lado
Mostra-me sorrindo o fim
O sonho já esquartejado.

26 de mar. de 2012

A casa da bisa.

As janelas já estão cerradas,
E as flores reclamam os sorrisos de outrora.
Os frutos de árvores já minguadas,
E a lembrança de alguém que foi embora.

No quintal florescem ervas daninhas,
E as paredes iniciam a perda da cor.
Já não há cães, bois ou galinhas,
Como se tudo demonstrasse dor.

O portão, caído, sem força,
Folhas secas pela terra...
O céu de negras nuvens remoça
A lembrança da vida que erra.

Apenas a frase em sua derradeira casa
Reflete, em quem ama, carinho.
Saudade, enorme, que arrasa...
Ali era “o seu cantinho”...

22 de mar. de 2012

Coragem de sonhar

Ao amigo da poesia independente.

Por que tachar a minha literatura de malefício
e, atacando, fazer-me mau em seus valores,
se apenas nego, com coragem em meu ofício,
dando, aos que leem, indescritíveis sabores?

Meu diferencial não é pura aparência,
se ainda detenho, mesmo simples, individualidade.
Por que destruir, pelo domínio, minha essência,
e afirmar, com o consumo, tal pseudo-realidade?

Por que atacar a concepção do desconhecido,
já que o homogêneo não existe mais?
Julgar-me morto, quiça enlouquecido,

Se a fórmula é pura, simples demais?
Esqueceram que assim se mata o autor?
Cretinos! Morto este, nasce o leitor!

Recado em preto e branco

Sou vítrea:
e o veneno está nesse corpo negro e forte
que faz qualquer menina
desfazer da própria sorte.

Sou branca:
pó azul diluído na veia.
E mares em olhos sedentos sublimes
Maré do desejo que enfim pranteia.

Sou turva:
corpo escravo e obediente.
Imagem-reflexo de sua atitude,
latente, doando,
que já não se ilude.

Sou negra
do corpo branco: alarme!
dividida: história, arte.

E do seu claro amor,
que ausenta a necessidade de qualquer cor,
coloca-se o preto no branco
Invade-me.
Cessa-se o pranto.